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Artigo: Falando sobre suicídio

Psiquiatra Ana Achutti e Psicóloga Ana Moura, da Elo Vida, assessoria em saúde do SEMAPI

Alice tem 9 anos e, nas últimas semanas, vem perdendo a alegria. Tem dificuldade para acordar e resiste para ir à escola. Isto não é comum nela. Pelo contrário. Alice é alegre, gosta da escola e tem amigos. Os pais já notaram que tem alguma coisa acontecendo. Mas, neste dia, Alice chega, larga a mochila e diz: “Eu nunca mais vou aprender nada até ficar uma espantalha e nunca mais vou comer nada até virar uma caveira”. E começa a chorar. O pai, pediatra, vem atendendo muitas crianças e adolescentes no hospital e no posto. Mas nunca imaginou ouvir alguma coisa parecida da filha.
Uma mãe de três meninos, no seu único dia que não faz faxina na casa de outras mulheres, resolveu aproveitar o dia de sol no inverno para colocar cobertores e colchões para arejar. Encontrou, embaixo no colchão do filho de 14 anos, um bilhete no qual ele dizia que não queria mais viver. Nada dava certo para ele e, toda vez que procurava o pai, este nunca atendia. A mãe leva o bilhete no posto de saúde e mostra para a enfermeira.
Agatha tem 17 anos. Desde os 12 cuida de três irmãs menores que ela. A mãe foi embora e deixou todas com o pai. Este acha Agatha perfeita. Ela estuda, tira notas ótimas e cuida das irmãs. De vez em quando, a avó aparece para ajudar. Agatha quer ser médica. Um dia ela é encontrada no banheiro da escola com os punhos cortados. Quando sai da internação é encaminhada para atendimento psicológico.
Menina de 15 anos mostra para a professora carta que a colega entregou para ela. Na carta a colega dizia que queria se matar. Escola discute como vai atender a situação.
Funcionária procura RH da empresa. Diz ter assistido documentário sobre suicídio e está convivendo com um colega que mudou muito desde que a namorada terminou namoro repentinamente com ele. Antes era alegre e bem disposto e que agora está fechado, triste e quase não cumprimenta.
Na família de Helena, 60 anos, se fala de qualquer pessoa que já faleceu, exceto de dois: do filho, que aos 16 anos tirou a própria vida, e tampouco da bisavó dele, que também cometeu suicídio, quando recém havia ganhado seu filho, o avô, que, não tão estranhamente, nunca falou de sua mãe.
Para a psicanálise, o que não se fala, como proibição, retorna como sintoma. Sempre retorna. Ali sempre estará um sinal, ao qual é necessário voltar para ser trabalhado, digerido. Não é verdade que o que não é falado é esquecido.
A depressão pode ser observada em idades muito precoces (inclusive como resultado de um adulto responsável não tratado) e é a principal causa de incapacidade em todo o mundo, contribuindo de forma importante para a carga global de doenças.  Nos anos 90, ocupava o quarto lugar neste ranking, projetando seu aumento para o segundo lugar em 2020.  Tem alto potencial de gerar grande sofrimento e disfunção no trabalho, na escola ou no meio familiar.  Na pior das hipóteses, pode levar ao suicídio. Cerca de 800 mil pessoas morrem por esta causa a cada ano, sendo a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos (OPAS, 2018).
Depressão traz sempre a ideia de lentidão e tristeza. Mas, para complicar, ela também pode estar por trás de aceleração e euforia. Por isso, se faz tão importante o encontro humano, consigo mesmo e com o outro.
O sofrimento é inerente à vida; reconhecê-lo e aceitá-lo é o primeiro passo para suportá-lo e superá-lo. Mas não fazemos isso sozinhos. Precisamos uns dos outros. Precisamos, todos, sermos percebidos e reconhecidos; é pertencendo que isso ocorre. Mas há muito construímos um mundo que privilegia o individualismo, a competição, levando a um olhar empobrecido sobre nós mesmos; logo, não temos um olhar suficiente para o outro.
Nas histórias pontuadas no início do texto, ali estavam momentos de dor, de desesperança, de desmotivação para a vida. Mas também, nessas histórias, todos encontraram alguém que os enxergou, que compreendeu seus sinais de que precisavam da iniciativa de um outro ser humano, alguém que os ajudasse a sair da bruma escura, que tem, entre seus sintomas, não deixar ver qualquer perspectiva de por onde entrar luz.  A chance de ouvir uma voz de alguém que lhe diz que está ali e que não se está sozinho faz a grande diferença.
Não importa o motivo, não há como julgar a dor alheia. Ofereça seu tempo e escuta sincera, num ambiente tranquilo, que ofereça sigilo (se não os tem, escolha outro momento ou terceirize, alertando alguém que possa fazê-lo de forma adequada, pois, não há nada mais desalentador que a percepção de um interesse forjado), acredite na dor relatada, não minimize com soluções fáceis (se fosse fácil, já teria resolvido), sempre auxilie a encontrar ajuda, seja na família, no trabalho ou diretamente com um profissional da saúde.
Quanto à origem da escolha da cor para nomear o Setembro Amarelo, criado para marcar a lembrança de que precisamos falar sobre o tema do suicídio, dolorido para tantos e assustador para todos, e que poderia estar associada a conceitos como a Atenção que demanda ou ao Desespero envolvido, na verdade surgiu de uma história, ao contrário das que citamos, em que o silêncio cursou contra a vida.
No dia 08 de setembro de 1994, um adolescente norte-americano, que teve o fascínio e tinha conseguido recuperar um carro Ford Mustang 1968, pintou-o amarelo brilhante, ficando identificado pelo carro, bem quisto que era por todos. A tragédia se deu por ter cometido suicídio apenas 7 minutos antes dos pais chegarem em casa. No funeral, na busca dos pais por mitigar sua dor, fazendo por outros o que não conseguiram fazer por seu filho, distribuíram cartões que portavam uma fita amarela (Yellow Ribbon, nome de uma fundação criada, então), com dizeres “Se você está pensando em suicídio, entregue este cartão a alguém e peça ajuda!”. Resultou que os 500 cartões distribuídos surtiram efeito, se multiplicaram, e pelo menos 115 mil jovens, desde então, pediram ajuda e salvaram suas vidas, segundo a fundação que os acolheu.
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